27 de julho de 2009

bella

"Tomar nas próprias mãos a vida inteira"


"A vida quer ir por ali e uma pessoa decide que não vai por ali mas sim por onde decide que vai.Numa irrepreensível determinação.Tomar nas próprias mãos a vida inteira.Ou só uma pequena parte dela,porventura a mais insignificante,porventura a única determinante.Como poderá decidir se é ela que está a decidir a sua vida e não a vida a decidir por ela.Dando-lhe a ilusão de que é ela a escolher.Decidir é dizer não e sim,aceitar é dizer sim e não.As tais minúsculas palavras misteriosas que tudo alteram."


P.P

26 de julho de 2009

"Ela não gosta de pessoas importantes"


"Ela desconfia de pessoas importantes.Uma pessoa importante é uma pessoa poderosa.Alguem que tem poder sobre ninguém.Que só deseja ter poder sobre outra pessoa....Quem ela aprecia cada vez mais é o seu professor de poesia.Álguem que não tem poder sobre ninguem.Que só deseja ter poder sobre as palavras.Muito diferente daquele homem que depois do jantar se aproximou dela e a convidou para ir com ele passar uma semana na costa da Sardenha."


"Jogam e são jogados num jogo que não escolheram.Pelo menos não medem as consequências do que estão a fazer.Peças contra peças.Cada um com a sua vaidade que impede de ver o outro que está diante de si.Cada um querendo destruir o outro,senão agora,depois.Os vencedores para quem vencer é o unico objectivo.A selecção natural em que o menos escrupuloso vence e esmaga o mais escrupuloso.Sente-se confusa.Tem vontade de fugir."


"O que eu mais desejava era ser uma criança para poder esquecer tudo e voltar a aprender tudo de outra maneira.Maravilhoso seria nunca deixar de ser criança.Não pretender ser ninguem.Antes mesmo de saber o que isso é.Não pense que o mais interessante nos aguarda no fim do caminho.Um caminho com um fim é um beco sem saída.Nós não acabamos no fim,acabamos inesperadamente numa curva."

"A angustia tem-na visitado pouco.Ela anda bastante ocupada em procurar várias coisas e a encontrar outras.Não directamenta sobre ela,mas que têm a ver consigo e a conduzem a si própria"

Pedro Paixão

o estranho no cândido,lindaaa

21 de julho de 2009

um dia vou ouvir o som com o olhar

"Os humanos não suportam a lucidez em permanência"




"São raras as pessoas generosas.São raras as pessoas.É o que ela vem descobrindo com os anos.Muito raras.Uma pessoa conhece outra pessoa porque não sabe muito bem o que está a fazer.Senão não o faria.Uma pessoa é um mundo.Um mundo é muito grande,demasiado grande para a própria pessoa,com alguns abismos e lugares escondidos e zonas nunca iluminadas.Ela tinha que vir.De certo modo já se conheciam."

"O mundo é estranho.Está sempre a mudar e é sempre o mesmo.É o que pensa quando prova o sumo de alperce."

"Um dos quadros postos no chão não é um quadro.É uma fotografia a preto e branco de uma mulher oriental.Nua de joelhos com as mãos atadas atrás das costas.A sua face não revela qualquer sentir.Nem dor,nem prazer.Nem aflição,nem submissão.É isso que a atrai na fotografia."

"Ela chama-lhe Cão.Cão é o nome do Cão.Não há melhor nome.É o unico cão no mundo que se chama Cão.Foi por isso que o escolheu depois de procurar muito."

"As pessoas estão sempre a enganar-se.Tanto no que julgam que são,como no que julgam que os outros são.Uma pessoa é sempre muita gente.É o que ela acha"

"A musica é mais verdadeira do que as imagens.Não se deixa fixar,agarrar,parar.Bem mais perto da vida."

Pedro Paixão

14 de julho de 2009

10 de julho de 2009

"A sofreguidão de um instante"


Para o teu ser marcante..

"Tudo renegarei menos o afecto
e trago um ceptro e uma coroa,
o primeiro de ferro, a segunda de urze,
para ser o rei efémero
desse amor único e breve
que se dilui em partidas
e se fragmenta em perguntas
iguais às das amantes
que a claridade atordoa e converte.
Deixa-me reinar em ti
o tempo apenas de um relâmpago
a incendiar a erva seca dos cumes.
E se tiver que montar guarda,
que seja em redor do teu sono,
num êxtase de lábios sobre a relva,
num delírio de beijos sobre o ventre,
num assombro de dedos sob a roupa.
Eu estava morto e não sabia, sabes,
que há um tempo dentro deste tempo
para renascermos com os corais
e sermos eternos na sofreguidão de um instante."

José Jorge Letria

5 de julho de 2009

com nexo mas sem nexo

Escreves para ser ouvida.
-Precisas que te ouçam?
As palavras são poder,modificam o mundo e os caminhos desenhados.
Palavras silenciosas são necessárias.
-Achas?
É necessário o silêncio
só assim te ouves,ou te fazes ouvir.
Gosto do sonhar alto no silêncio dos objectos e dos pensamentos sem nexo,antes de preparar-me para existir.
-Será que todos o sentem?
Muitos sentem o fresco da janela aberta,outros abrem-na simplesmente.

-Dá-me algo que faça quase sentir..
As lágrimas são todas quentes,mas muitas nasceram no frio,gosto de limpar as lágrimas dos corações secos.
-Porque procuras o pouco quando queres o tudo?
Encontrar a personalidade na perda da mesma
-Lê-me algo..
"Olho,como uma extensão ao sol que rompe nuvens,a minha vida passada;e noto,com um pasmo metafísico,como todos os meus gestos mais certos,as minhas ideias mais claras,e os meus propósitos mais lógicos,não foram,afinal,mais que bebedeira nata,loucura natural,grande desconhecimento.Nem sequer representei.Representaram-me.Fui,não o actor mas os gestos dele."
-Saber,o que sabes?
Não saber de mim é viver
Saber mal de mim é pensar
Saber de mim é não saber

3 de julho de 2009

1 de julho de 2009



A vida
deve ser bebida
quando os lábios estiverem
já mortos

Educadamente mortos

Ser que nunca fui

"Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem ter nunca partido
para o norte aceso
no arremesso da esperança

Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse:o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais

Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava

Houve lágrimas que não matei
porque me fiz
de gestos que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente"

Mia Couto