
"Ela desconfia de pessoas importantes.Uma pessoa importante é uma pessoa poderosa.Alguem que tem poder sobre ninguém.Que só deseja ter poder sobre outra pessoa....Quem ela aprecia cada vez mais é o seu professor de poesia.Álguem que não tem poder sobre ninguem.Que só deseja ter poder sobre as palavras.Muito diferente daquele homem que depois do jantar se aproximou dela e a convidou para ir com ele passar uma semana na costa da Sardenha."
"Jogam e são jogados num jogo que não escolheram.Pelo menos não medem as consequências do que estão a fazer.Peças contra peças.Cada um com a sua vaidade que impede de ver o outro que está diante de si.Cada um querendo destruir o outro,senão agora,depois.Os vencedores para quem vencer é o unico objectivo.A selecção natural em que o menos escrupuloso vence e esmaga o mais escrupuloso.Sente-se confusa.Tem vontade de fugir."
"O que eu mais desejava era ser uma criança para poder esquecer tudo e voltar a aprender tudo de outra maneira.Maravilhoso seria nunca deixar de ser criança.Não pretender ser ninguem.Antes mesmo de saber o que isso é.Não pense que o mais interessante nos aguarda no fim do caminho.Um caminho com um fim é um beco sem saída.Nós não acabamos no fim,acabamos inesperadamente numa curva."
"A angustia tem-na visitado pouco.Ela anda bastante ocupada em procurar várias coisas e a encontrar outras.Não directamenta sobre ela,mas que têm a ver consigo e a conduzem a si própria"
Pedro Paixão

História da princesa moura e do dragão azul
ResponderEliminarEsta é a história
de uma princesa moura das terras quentes do sul
e de um dragão azul - que era afinal um príncipe
das terras altas do norte
Andava a princesa desaustinada, numa noite de temporal
e absolut vodka, num reino que ficava equidistante.
(Ela não sabia do que andava à procura.)
Entrou na sua carruagem puxada por noventa cavalos e tinha apenas percorrido alguns metros quando se lhe atravessou no caminho um jovem dragão azul com figura de príncipe, molhado como um pinto por causa da chuva que caía muito forte. Ela parou, baixou o vidro da carruagem, e ele quis saber que música vinha ela a ouvir e para onde ia ela àquela hora da madrugada.
Logo aí a moura percebeu que era um dragão azul das terras altas do norte que lhe falava a sorrir, e foi sem ela se dar conta que ele a raptou, convidando-a para sua casa...
Ainda se perderam, porque o belo dragão ainda não sabia de cor o caminho de casa.
Mas a princesa deixou-se levar até ao castelo, feliz por acreditar que o dragão não lhe iria fazer mal - quem sabe seria um príncipe? (Parecia mesmo um príncipe que ela já tinha visto num filme!...)
Encontraram-se numa noite de temporal
entre o norte e o sul
e foi ela que o guiou
sem saber que estava a ser raptada
Quando chegaram ao castelo o príncipe abriu a porta devagar e entraram os dois pé ante pé, pois todos se encontravam já a dormir.
Os aposentos continuavam mergulhados na penumbra da madrugada e a princesa moura ficou a saber que no castelo não havia luz nem água, e por isso foi preciso acender uma vela.
Conversaram de música e cinema durante um bocadinho, mas o dragão dentro do príncipe começou a beijar a moura, que estava cheia de medo.
(Não é todos os dias que uma moura é raptada por um dragão azul das terras altas do norte!...)
E cheia de medo ela se foi entregando devagarinho até deixar de ser princesa, para se transformar numa sereia nos braços do belo príncipe...
Abraçaram-se muito, beijaram-se muito, mas ela temia que o dragão fosse apenas mais um sapo, e lá se ia protegendo como podia, dando muito mas não tudo.
Queria sossegá-lo, ao príncipe, mas o dragão não queria sossegar...
E foi preciso muito carinho e ternura e paciência para adormecer o príncipe e o dragão dentro dele...
Depois a sereia procurou peça a peça as suas roupas espalhadas pelo chão e foi-se vestindo devagar e sem barulho, para não o acordar.
Ela apagou a vela, tapou o príncipe adormecido e beijou-o docemente na face. Ele sorriu, sem abrir os olhos.
E a moura disse "Até logo".
Encantada.
L.A.
Coimbra, 1998